O Educandário Eunice Weaver como espaço de encarceramento da infância na Amazônia (1942–1980)

Autores

  • Camilla Raphaelle Nascimento de Oliveira Miranda Autor

DOI:

https://doi.org/10.66165/ysex9k09

Palavras-chave:

Educandário Eunice Weaver; infância institucionalizada; hanseníase; Amazônia.

Resumo

O artigo analisa o papel do Educandário Eunice Weaver, inaugurado na década de 1940, no contexto das políticas segregativas da hanseníase na Amazônia, compreendendo a instituição não apenas como espaço de acolhimento da infância, mas também como um mecanismo de controle social. A pesquisa busca compreender como crianças saudáveis, separadas de seus pais doentes, foram submetidas a práticas institucionais que organizavam sua rotina, comportamento e formação, contribuindo para a manutenção da lógica do isolamento compulsório. Nesse sentido, procura-se entender de que forma esses mecanismos ajudaram a legitimar essa separação e quais impactos tiveram na vida e nas memórias desses sujeitos. A metodologia combina revisão bibliográfica, análise de documentos históricos e relatos orais de egressos e familiares que vivenciaram o Educandário, à luz das teorias de Erving Goffman e Michel Foucault sobre instituições totais e governamentalidade. Os resultados evidenciam que o Educandário funcionou como uma extensão simbólica e material dos hospitais-colônias, reproduzindo lógicas de disciplina, vigilância e exclusão. As crianças eram submetidas a rotinas supervisionadas e rígidas, além de um controle constante, o que influenciou diretamente suas experiências, suas subjetividades e a forma de enxergar o mundo. Conclui-se que o Educandário Eunice Weaver teve um papel importante na manutenção das práticas segregativas na Amazônia, deixando marcas afetivas e sociais que ainda persistem nas memórias das gerações atingidas.

Biografia do Autor

  • Camilla Raphaelle Nascimento de Oliveira Miranda

    Mestra em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (PPGHIST | UNIFESSPA). Pós-graduanda em Educação em Direitos Humanos na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atuou como assistente editorial da Revista Escritas do Tempo, vinculada ao referido programa. É também especialista em MBA em Gestão Escolar pela Universidade de São Paulo (USP) e em Metodologias Ativas pela Faculdade Adventista da Amazônia (FAAMA). Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Em 2013, foi monitora no macrocampo de Cultura Digital do Programa Mais Educação na Escola de Ensino Fundamental e Médio Acácio Felício Sobral. Entre setembro de 2013 e agosto de 2015, atuou como estagiária na Diretoria de Pesquisa e Pós-Graduação da PROPESP/UFPA. Em 2012, foi bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC/CNPq. É pesquisadora no Grupo de Estudo e Pesquisa da História das Práticas da Saúde e das Doenças (GEPHPSD), vinculado à UFPA, integra o GT História da Saúde e das Doenças da ANPUH-PA e é voluntária do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase MORHAN no Pará. Suas principais áreas de atuação são: História da Saúde na Amazônia, discriminação, estigmatização, hansenologia e direitos humanos.

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Publicado

2026-04-23

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

O Educandário Eunice Weaver como espaço de encarceramento da infância na Amazônia (1942–1980). (2026). Revista Sumaúma, 15(01). https://doi.org/10.66165/ysex9k09